O Hospital de Base de Rio Preto conseguiu na Justiça liminar que autoriza equipe médica a realizar transfusão de sangue em um paciente de 86 anos que é Testemunha de Jeová.
A liminar foi concedida pelo juiz da 2ª Vara Cível de Rio Preto, Paulo Marques Vieira.
No despacho, o juiz determina que “se faça a transfusão, mesmo havendo discordância dele ou de seus familiares”.
De acordo com a doutrina seguida pelas Testemunhas de Jeová, a lei de Deus proíbe que o fiel receba sangue de outras pessoas, sob pena de perder a salvação do seu espírito.
Em nota, o Hospital de Base informou nesta quarta-feira (02) que o paciente, que está internado na UTI, sofreu uma hemorragia no estômago e precisa da transfusão.
O paciente está em tratamento há 40 anos por causa de uma úlcera e sofre de problemas cardíacos.
Segundo informou um representante das Testemunhas de Jeová em Rio Preto, o paciente foi operado no mês passado para conter a hemorragia e seu caso teria se agravado por causa de uma infecção hospitalar.
“A família e o paciente manifestaram, desde a primeira internação, que não querem a realização da transfusão. Por isso, a cirurgia foi feita sem reposição de sangue”, afirma Jefferson Liebana, ancião das Testemunhas de Jeová do salão [igreja] do bairro Boa Vista. Jefferson é membro da Colh (Comissão de Ligação com Hospitais), grupo das Testemunhas de Jeová que acompanha casos como esse.
No pedido enviado à Justiça, o HB informou que a transfusão é o único procedimento possível para salvar a vida do paciente. Duas filhas do aposentado, que é de José Bonifácio, se revezam como acompanhantes do pai para evitar que o procedimento seja realizado.
“Desde o início, as filhas pediram para o médico iniciar tratamento com eritropoetina [leia quadro ], mas eles se negaram’, diz Jefferson
O HB informou nesta quarta-feira (02) que, mesmo com o aval da Justiça, o procedimento ainda não foi realizado porque “a equipe está estudando detalhes do caso”.
Outras religiões aceitam o procedimento
Católicos, evangélicos e espíritas se dizem a favor de procedimento para salvar vidas; Testemunhas de Jeová falam em tratamentos alternativos
As Testemunhas de Jeová são a única denominação cristã, entre as mais tradicionais, que condena a transfusão de sangue.
Na região de Rio Preto, são pelo menos três mil testemunhas de Jeová praticantes.
Para acompanhar casos como o do aposentado internado na UTI do Hospital de Base, membros da religião criaram a Colh (Comissão de Ligação com os Hospitais).
Integrantes da comissão visitam hospitais em todo o país, expondo a posição dos fiéis e cadastrando cirugiões que operam pacientes sem reposição de sangue.

Segundo ele, muitos métodos para evitar a transfusão de sangue já foram desenvolvidos para atender a Testemunhas de Jeová, como a hemodiluisão.
Nesse processo, o paciente recebe grande quantidade de soro para dissolver o sangue e, assim, perder menos plaquetas durante cirurgias.
“Não queremos nos tornar mártires, nem somos suicídas, apenas temos a convicção de obedecer às leis de Deus”, argumenta Jefferson.
Outras religiões / Enquanto as Testemunhas de Jeová se recusam a receber sangue de outras pessoas, denominações evangélicas e a Igreja Católica não veem problemas.
No ano passado, a Diocese de Rio Preto promoveu o “Dia Diocesano de Incentivo à Doação de Sangue”, realizado na Sexta-feira Santa.
“Não há nada na lei de Deus que proíba a pessoa de ajudar o próximo e doar sangue é um ato de caridade”, disse nesta quarta-feira (02) o bispo da Diocese de Rio Preto, dom Paulo Mendes Peixoto.
Quem também não vê problemas em receber transfusão de sangue é o superintendente da regional 2 da Igreja do Evangelho Quadrangular, Claudio de Oliveira.
“A Bíblia diz que a condenação está em consumir o sangue como alimento e não quando é usado em um tratamento” diz.
Para a advogada Sandra Zonari, 42, que é voluntária no Hospital Bezerra de Menezes e espírita kardecista, nenhum procedimento médico deve ser condenado pela fé.
“Todos os procedimentos médicos existentes para salvar a vida de uma pessoa devem ser usados. Não entendemos a transfusão como algo ruim para a espiritualidade”, afirma Sandra.
Outro caso
Em março do ano passado, o Hospital Austa conseguiu na Justiça autorização para fazer transfusão de sangue em um recém-nascido de 14 dias que tinha dificuldades para respirar.
O procedimento foi realizado contra a vontade da família, que é Testemunha de Jeová.
Frequentes
Casos como esses não são tão raros quanto se imagina. Em 2002, o Austa teve de procurar a Justiça para fazer transfusão de sangue em outro bebê cuja família também era Testemunha de Jeová.
O caso do aposentado de José Bonifácio é o quarto em que o Hospital de Base precisou ir à Justiça para autorizar a transfusão.
Fonte: Rede Bom Dia
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